Resenha de A Infância do Sertão de Gilvan Guedes

        O romance A infância no Sertão de Gilvan Guedes é um romance dramático que conta a infância do avô do autor no sertão da Bahia. O avô narrou para o neto sua infância e juventude, sua vida como tropeiro no sertão Baiano.

       Além de Cláudio- o avô do autor- conhecemos ao longo do livro outros personagens tais como Ana-a mulher dele-, e os filhos, em especial Josefa.

      O narrador-personagem ora assume a posição de personagem, ora de narrador onisciente, isto é, ele sabe o que se passa no coração dos personagens e em seus pensamentos.

        Além disso, Gilvan Guedes em vários momentos convida o leitor a ver suas origens com outros olhos, emitindo opiniões e convidando o leitor a refletir. Traz também algumas curiosidades históricas, como  quando a cidade de Cumbe se transformou em Euclides da Cunha- quee recebeu esse nome em homenagem  ao autor de “Os sertões”.

       Cláudio nasceu em 1873,  na fazenda Patamuté. Sua mãe teve 14 filhos. Com Claudio não foi diferente. Todo ano sua mulher tinha um filho. No quinto bebê, Claudio viajou para Belo Monte e deixou sua mulher com sua sogra que veio cudar das crianças e do resguardo que, naquele tempo, mulher não podia fazer nada enquanto estava de resguardo, eram 30 dias de absoltuta inatividade.A mãe dela teve um mal súbito e morreu de repente. Ana perdeu o bebê com o susto.

       O autor então para a narrativa para fazer uma inferência:

          “Ninguém pode impedir aqueles que vão de seguirem para outra vida. Somente Deus que dá a vida é que pode retirar, porque segundo a Bíblia, morrendo é que se pode viver de novo, porque o homem pode matar a carne, mas não pode matat o espírito.”

             O trecho acima revela outro aspecto muito detalhado nesse livro, a religiosidade do homem sertanejo.

       Logo em seguida, o autor faz alusão aos fatos históricos da época, como a Guerra de Canudos:

 “Em 24 de Novembro de 1896, O governador da Bahia, Luís Vianna, dá ordens para a primeira incursão que na Bahia, que na época imaginava-se definitiva. Partiram da capital baiana 113 soldados, dos nove Batalhoes de Infantaria comandados pelo tenente Pires Ferreira. Ao chegar a juazeiro a população estava toda apavorada e com muito medo, porém, Belo Monte ainda estava a mais de 150 km de lá assim comoo camando decidiu e ir ao encontro de Antônio Conselheiro.”

         E também nesse trecho:

     “O sertão estava longe dos aolhos da autoridade. Ninguém era capaz de enxergar a miséria do sertanejo. Mas anos depois, quando finalmente enxergaram, abasteceram Canudos com armas e até canhoes e mataram todos os seus moradores, não deixando escapar nem as crianças”

        Outra situação curiosa é a menção à fatos sobrenaturais, coisas que Cláudio acreditava ver no meio da caatinga.

        Além disso, há uma grave alusão à seca, um grave problema de infraestrutura e saúde pública. Infelizmente ainda não foi solucionado até hoje, integralmente, a condição da seca no sertão nordestino.

“ Claudio falou para Ana que a pior coisa na vida do ser humano é quando falta alimento.Muitas vezes quando Cláudio seguia em sua viagem, encontrava crianças de até 15 anos que nunca tinha vsto uma sala de aula. Muitas nem nunca tinham ouvido falar. Ele comentava com Ana,sobre  qual seria  o futuro dessas crianças , pois lá no vilarejo, dividindo a água com os animais, ás vezes a água tinha sabor de urina de vaca,mas era muito preciosa para o sertanejo”

       Para ilustrar a condição atual da seca nordestina, trouxe para os leitores o trecho dessa matéria; A fonte da mesma está ao final, mostrando a relevância do tema apresentado pelo  autor com esse enredo, mesmo nos dias atuais:

   “Desde 2012, praticamente não chove no sertão. Prova disso é que quilômetros de sua vegetação - a caatinga - está desmatada e escura, como se tivesse acontecido um grande incêndio.

Os rios e açudes que abasteciam as populações rurais não estão em situação melhor. As autoridades consideram que as represas trabalham com 6% de sua capacidade, mas algumas literalmente evaporaram.

A dramática situação traz, muitas vezes, uma difícil escolha para os moradores da região: conseguir água para os animais ou para as pessoas.

E, com muita dor, Kerginaldo e as 70 famílias do remoto assentamento de Nova Canaã, polo leiteiro de Quixeramobim, foram enterrando vacas enquanto procuram alternativas para sobreviver.

Dependentes de ajuda

Atividades cotidianas como fazer a higiene pessoal, lavar roupa ou, inclusive, beber água se tornaram um luxo no sertão, que se estende por oito estados do país.

Dos 25 milhões de habitantes, pelo menos três milhões sofrem com o desabastecimento total de água, um milhão deles no Ceará, segundo cifras do governo deste estado.

Distante da recomendação da Organização Mundial de Saúde - que considera necessário 100 litros de água ao dia por pessoa - a água chega a conta-gotas nestas comunidades ligadas por estradas de terra como Nova Canaã, onde as torneiras já são decorativas.

Desde que a seca se intensificou, o governo começou a levar água gratuitamente para estes locais em caminhões-pipa, estimando um consumo de apenas 20 litros diários por pessoa.

Como esta água acaba rápido, os vizinhos se organizam para pagar eles próprios os caros caminhões-pipa, ir com seus burros até poços públicos onde as filas demoram horas ou cavar seus próprios poços em casa para conseguir uma água tão salobra que nem os animais querem beber.”( https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2017/02/21/sertao-nordestino-enfrenta-sua-pior-seca-em-um-seculo.htm)

 

    O livro A Infância No Sertão, em suas 237 páginas escritas  em tom confessional, com inserções de pensamentos do autor/ narrador-personagem , conduz o olhar do leitor para a realidade que ele quer demonstrar, além da ampla divulgação de fatos históricos.

     Em outros momentos, porém, o narrador toma a frente e faz alusão a coisas que foram vividas apenas por, por exemplo, Josefa, uma das filhas de Cláudio e Ana, que o proprio Claudio não teria como falar porque não vivenciou apenas como expectador. Josefa, a propósito, se casou com José  Garcia . A linguagem é coloquial, sem ser vulgar, e apresenta alguns regionalismos.

       A diagramação do livro apresentou cada cena ou o que seria um novo capítulo  através de um pequeno espaço entre as passagens. Não há capítulos no livro, o que não é uma escolha muito comum para a diagramação atual.

      A capa é muito bonita, com o chão rachado pela seca, em cor vermelha como o sol do sertão e com o chapéu do sertanejo em tom de amarelo sobre o título, como se estivesse sobre a cabeça. A palavra Sertão está em amarelo sobre a capa vermelha, se destacando no conjunto. Em volta da ilustração, um pontilhado emoldura a ilustração, criando a sensação de página d um diário. Um belo trabalho de capa.

       Um livro denso, com uma história forte e que não deve ser esquecida. Para ler, refletir e reler.

                                                         Michelle Louise Paranhos - crítica Literária.

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