Resenha de Anjos nas Trevas- Entre a Missão e o Coração de Yeda Borges

Autora : Yeda Borges

Número de páginas: 378

Editora: Alfa do cruzeiro

 
      O prólogo de Anjos nas Trevas inicia-se em flashback, com a jovem Anhaí dando a luz à Amanda.
Assim que o bebê nasce, num dia incomum de forte chuva e o sol brilhando, Anahí sente um aroma de flores no ar. Dias depois é surpreendida com a visão de uma luz vermelha no quarto da menina recém-nascida e a sensação de estar sendo vigiada por uma sombra. Anahí, então, começa a ter sonhos enigmáticos com a preseça de uma índia: 
 
“Em uma dessas noites, ela viu essa mesma índia em um campo de flores brancas. Em sua barriga havia uma bola de sangue. Anahí acordou assombrada com tudo isso, correu até Amanda e a encontrou sorrindo. Ela parecia definitivamente um anjinho. E assim os anos se passaram entre sombras e aroma do campo.”
 
A partir do primeiro capítulo de Anjos nas Trevas conhecemos a jovem Amanda, de apenas dezessete anos e a primeira página a autora a descreve como uma jovem bondosa, pura e espiritualizada:
 
“Sempre imaginei como seriam o céu e o inferno. Será que existe alguma passagem secreta para esses lugares, no nosso mundo real, ou é apenas no plano espiritual que tudo toma forma? Esse mistério me deixava com medo. Se o Mal pode me alcançar, como escapar de suas garras? Como trilhar o caminho do bem sem nunca me desviar? E, por fim, como saber se o caminho escolhido é o caminho do bem? Até hoje nunca tive muito do que me arrepender. Talvez pela pouca idade. Sabe? Com 17 anos a gente só quer curtir músicas e beijar na boca; Porém sou tímida, então só curto músicas. (...) Somos realmente importantes para Ele? A humanidade é tão cheia de pecados... fica difícil acreditar que somos especiais para Deus. A noite estava magnífica, as estrelas, lindas. Engraçado... tinha uma que brilhava com mais intensidade. Às vezes parecia se aproximar de mim, mas isso não me dava medo, pelo contrário, sentia uma paz imensa”
 
Num dia em que seus pais saem de casa deixando-a sozinha, tendo como companhia apenas sua cachorrinha Bolinha, Amanda ouve um barulho em seu quarto e ao chegar lá percebe que está tudo revirado. Uma página de seu livro de história foi arrancada: uma página da história dos Jesuítas no Brasil. E há uma enorme mancha de sangue no lençol.
Ela limpa tudo com a intenção de não assustar sua mãe e vai procurar entender o que está aontecendo com o padre da paróquia, Rodolfo, que procura distrai-la, especialmente quando ela diz que no sonho recorrente, havia seis portais com calor insuportável.
Ainda na igreja ela se depara com Alonso, jovem seminarista que está prestes a fazer seus votos para abraçar o sacerdócio. 
Nesse momento, Yeda Borges nos apresenta o co-protagonista Alonso, que assume um dos Ponto de Vista da narrativa, alternando-o com Amanda. 
Alonso revela que nasceu numa cidade conhecida como Sete Barras, em São Paulo. Como também estivesse tendo sonhos recorrentes com a jovem Amanda, resolve consultar o sacerdote em busca de orientação. 
O padre tenta encerrar a conversa, mas Alonso fica curioso e resolve conversar com a jovem no Parque Ibirapuera. Enquanto tomam um sorvete juntos, Alonso explica à ela sobre os portais do Inferno.
 
“(...) Dizem que há seis portais espalhados pelo mundo, e que são entradas para o inferno. São eles: Vulcão Masaya, que se localiza na América Central, na Nicarágua, também conhecido como “La bueca Del diablo”. Em seguida temos, também na América Central, a 640 quilômetros do vulcão Masaya, uma caverna onde os Maias acreditavam ser o Xibalba, o mundo espiritual, o lugar do medo. Também temos a Caverna Hades, ou seja, o próprio inferno. Dizem que lá dentro há um rio que segue até o final da caverna. Na Islândia existe o Monte Hekla, que também indicam ser um portal para o inferno. Na Irlanda, temos a Basílica de São Patrício ou Purgatório de São Patrício. Algumas pessoas contam que lá é um portão para o Inferno. Mas também, nesse lugar, os católicos acreditam que podem alcançar o perdão de Deus. Conta a lenda que, 1.500 anos atrás, São Patrício teve visões nesse lugar. Quando o santo tentava converter os pagãos, precisava de uma prova para lhes dar. Então ele pediu a Deus tal prova, e Ele mostrou a passagem na caverna que ligava ao inferno. E, por último, na Etiópia, há um vulcão chamado de Erta Ale. E acredita-se que, se todos os portões do inferno fossem ligados entre si, esse seria o seu coração”.
 
Ao voltar para casa, Amanda tem outro sonho, agora com a India lhe dizendo: “Amanda, venha logo, preciso falar com você”. E viu a placa escrita Cananeia.
Amanda conta para o seminarista o sonho e ele logo imagina que há uma conexão espiritual.
Alonso propõe levar Amanda até lá e ela concorda, e é assim que os dois juntos empreenderão uma viagem até os portais do inferno rumo ao desconhecido.
 
Esse é o segundo livro que tenho o prazer de ler da autora Yeda Borges
O primeiro que li- Coração de um Anjo - também esteve no Em Pauta: Café Literatura e você Lê aqui no Blog e tem em comum com Anjos nas Trevas-Entre a Missão e o Coração a temática “anjos e espititualidade”, mas enquanto aquele estava mais voltado para a fantasia, este tem um toque sobrenatural e ainda histórico.
Ao apresentar Alonso, nascido na cidade de Sete Barras- São Paulo, Yeda trabalha com duas lendas existentes no local: um tesouro com sete barras de ouro nunca encontradas e que remonta o tempo dos Jesuítas no Brasil e a Lenda da Serpente. 
Há ainda uma pesquisa sobre a época dos jesuítas e a influência deles no povo local.
É muito interessante a árvore genealógica de Amanda e essa interrelação entre parentes e histórias que se entrelaçam e abraçam a outras famílias, formando uma grande Floresta Genealógica- conceito interessante se visto de um prisma espiritualista. 
Outro cuidado da autora teve foi trazer para o leitor a cultura, tradições e até a gastronomia de cada lugar visitado por Amanda e Alonso em busca dos portais, como segue o trecho abaixo: 
 
“Alonso pediu um Porramatur, que é, na verdade, um prato típico da Islândia. Ele é formado por vários pratos, que inclui pão de centeio, carne de tubarão fermentada, ou seja, carne podre, peixe seco, carne de foca, cabeça de ovelha, testículos de ovelha, salsicha de fígado de ovelha e sangue de ovelha. 
- Amanda, me desculpa – ele estava sem jeito. - Eu não sabia que esse prato era desse jeito. Nem sei o que fazer – ele estava desconcertado.
- Acho melhor chamar o garçom e trocar por outro prato. - Não, Alonso. Vamos experimentar – sugeri. - Já pedimos mesmo. 
O gosto daquilo era bem diferente de qualquer coisa que já tinha experimentado em toda a minha vida.”
Padre Rodolfo, que tanto fizera para tentar dissuadi-los da empreitada, acaba por ajudar aos jovens e é de muita importãncia na trama, trazendo dicas importantes para a jornada espiritual deles :
“- Olha... tudo leva a crer que esse Amduat contém as informações que o próprio Jesus usou em sua viagem ao submundo, naqueles três dias entre sua morte e ressurreição. Então, essas informações são confiáveis porque Jesus foi o único que conseguiu ir ao inferno e salvar alguém de lá”.
 
Outro cuidado foi com a religião e o relacionamento afetivo entre o seminarista e a jovem. A afetividade que amadurecia aos poucos, saindo do terreno da camaradagem e transformando-se em um amor cercado de respeito. Além de tratar com muita delicadeza o conflito de Alonso entre viver ou não esse amor e deixar o sacerdócio por Amanda.
O enredo alia ficcção sobrenatural e realidade, História do Brasil e contemporaneidade. 
Esse se tornou, sem dúvida, o meu romance preferido da autora e estou muito curiosa para ler os que se seguirem. Recomendo."
 
Michelle Louise Paranhos - Critica Literária.
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