Metamorfose do Espírito

Metamorfose do Espírito
 
Nasci.
Um ser minúsculo: 3 mm.
Insignificante. 
Não sei de onde nasci, não conheci minha mãe.
Nunca soube se um dia existiu alguma.
Sei que estou aqui e agora.
O Homem olhou para mim. 
Trouxe-me alimentos: folhas frescas de amoreira-branca.
Inúmeras folhas são depositadas sobre meu minúsculo corpo.
Alimento-me sem cessar, cresço. 
Ainda não quem sou nem porque vivo,mas alimento-me,devoro-me,absorve meus minúsculos pelos pretos e minha cor transforma-se em branca enquanto cresço.
Sou branco agora e ainda como.
Nada mais faço além de comer.
Não sei quem me alimenta, nem por que.
Porém, as folhas são depositadas sobre mim, todo o tempo.
Nunca falta alimento.
Folhas verdes, frescas. 
Alimento-me e cresço, tenho 7 cm agora.
Ainda não sei quem sou.
Se eu pudesse conversar com alguém me falariam do que iria acontecer agora.
Sinto um desejo estranho dentro de mim, vontade de expandir-me.
Secreto um líquido pegajoso como um fio, e envolvo com ele meu corpo.
Lentamente.
É escuro aqui dentro.
Sonho com luzes brilhantes.
Não sei quem sou, mas sei quem gostaria de ser: um pirilampo, um ser dotado de luz própria.
A prisão que criei para mim é densa e macia, os fios são brancos e envolvem meu corpo.
Se minhas asas não tivessem se atrofiado eu poderia um dia voar.
Seria uma mariposa branca. 
Não teria cores, não tive esse direito. 
Meu direito agora é apenas ficar aqui e sonhar.
Vejo luzes brilhantes.
Em meus sonhos, posso alcançar os céus.
Um minúsculo ser, iluminando a noite escura.
Nunca vi o céu: só esse galpão aonde o homem me alimentou e onde me envolvi com esse fio.
Espero.
Ouço a voz do homem.
Ele olha a e diz que o casulo está pronto, bonito.
Sinto que me movem, mas não posso sair.
Estou dentro de meu casulo, imóvel, não me mexo, não consigo.
Quando me depositam no caldeirão, a água fervente envolve-me o corpo.
Agora eu posso ver a luz e já sei quem sou.
Hoje, não sou mais um produto.
O bicho, aquele que produz o fio que o homem tece e recobre o seu corpo.
Não. A água me liberta e sou finalmente quem eu quero ser.
Nunca mais bicho- da –seda.
Hoje, sou pirilampo.
 
Texto de Michelle Louise Paranhos.
(Inspirado na novela do escritor Franz Kafka- A Metamorfose- representante do Movimento Literário Existencialista)

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